Banca de DEFESA: JULIO EDUARDO SOARES DE SÁ ALVARENGA
19/02/2026 11:03
A presente tese analisa a produção, circulação e consumo de pornochanchadas e outros filmes eróticopornográficos vinculados à imagem do cineasta David Cardoso, à sua empresa Dacar Produções Cinematográficas e à região da Boca do Lixo (São Paulo), entre 1975 e 1985, no contexto da Ditadura CivilMilitar brasileira. Nesse período, marcado por momentos de enfraquecimento e recrudescimento da censura às diversões públicas, a pornochanchada se consolidou enquanto gênero fílmico. Assim, a pesquisa investiga o cinema erótico como fenômeno cultural, político e econômico, inserido nas disputas em torno da moralidade, da sexualidade e dos usos do corpo no espaço público. Argumenta-se que essas produções se relacionam às transformações comportamentais entre as décadas de 1960 e 1980, vinculadas à Revolução Sexual, tensionando hierarquias geracionais e normas relativas a gênero, classe e raça, enquanto negociavam permanentemente com o aparato censório do Estado. A censura é analisada não apenas como mecanismo repressivo, mas como instância que elabora múltiplos discursos a respeito dos elementos que se pretendia vetar, demonstrando a constituição de uma rede dinâmica de relações de poder. Além disso, a ação censória também poderia ser contestada e burlada por meio de táticas desenvolvidas por indivíduos que buscavam pôr em circulação ou consumir as obras eróticas e pornográficas. Verifica-se também que o termo pornochanchada foi cunhado como forma de depreciar segmentos da produção nacional, classificados por parte da historiografia e da crítica cinematográfica como obras inferiores, sendo posteriormente apropriado por profissionais do cinema que reivindicavam para si o título de rei ou rainha da pornochanchada, em disputas discursivas nas quais esses indivíduos almejavam centralidade nos debates sobre o gênero e repercussão midiática. Sustenta-se que a expansão dessas produções integrou um movimento mais amplo de massificação do consumo de imagens sexualizadas, em som e movimento, e de redefinição das sociabilidades urbanas. No desenvolvimento da pesquisa, foram utilizadas como fontes históricas filmes, cartazes, periódicos, documentos da censura e da fiscalização estatal, entrevistas, legislações e críticas cinematográficas.