Banca de DEFESA: JOÃO VICTOR DA COSTA RIOS
04/03/2026 08:15
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Este trabalho, situado no campo da História Política, investiga as relações entre imprensa, poder e autoritarismo no contexto da Guerra Fria, tomando o Piauí como centro de análise. A problemática consiste em explicar de que modo a imprensa piauiense se configurou de forma ambivalente, ao mesmo tempo em que atuou como arena de disputa política e ideológica, articulando discursos e projetos nacionalistas, tornou-se alvo de monitoramento, censura e repressão por estruturas de inteligência e por dispositivos autoritários, sobretudo após o golpe de 1964. O objetivo central é analisar como se constituiu esse papel ambivalente da imprensa entre 1953 e 1967. O recorte inicia-se em 1953, quando Teresina (PI) passa a aparecer de maneira identificável em arquivos desclassificados da Central Intelligence Agency (CIA), indicando registros de interesse e monitoramento anteriores à Aliança para o Progresso. O recorte encerra-se em 1967, por corresponder ao término da primeira fase da ditadura civil-militar, momento de consolidação de práticas de vigilância e reorganização do controle de informação, permitindo observar efeitos iniciais da ditadura de 1964 sobre a imprensa. No campo teórico, a pesquisa dialoga com Domingos (2009) no debate sobre nacionalismo, Sousa (2015) no estudo das Ligas Camponesas no Piauí, Capelato (1998) na compreensão da imprensa como arena de disputa ideológica e Certeau (2009) nas reflexões sobre estratégias de poder e táticas de resistência. Considerando a imprensa como campo social construído por homens e mulheres, Cardoso (2003) e Gobbi (2023) ajudam a situar a participação feminina na sociedade piauiense e na comunicação. O conceito de Governo Invisível, formulado por Wise e Ross (1965), orienta a leitura das denúncias envolvendo interesses estadunidenses, enquanto Loureiro (2020), Roett (1972), Araújo (2025) e Oliveira (2020) contribuem para contextualizar as dinâmicas interamericanas. Na metodologia, adota-se análise qualitativa, com crítica documental e cruzamento de fontes, articulando documentos desclassificados norte-americanos disponíveis na Brown Digital Repository e no CIA FOIA Electronic Reading Room, além de documentação do Serviço Nacional de Informações, inquéritos policiais-militares e periódicos como O Dia, O Semanário (RJ) Estado do Piauí e Jornal do Comércio. Entre os resultados, destaca-se o protagonismo de O Semanário e do Jornal do Comércio na difusão do nacionalismo reformista e na defesa da soberania no Piauí, em articulação envolvendo homens e mulheres. Em perspectiva internacional, a pesquisa evidencia o Piauí como espaço de interesse e monitoramento estadunidense, aspecto reforçado pelas denúncias do jornalista Jocelyn Brasil sobre bases secretas e exploração de minérios em solo piauiense. Por fim, demonstra-se que, apesar da censura e da vigilância intensificadas em 1963-1964, jornalistas piauienses construíram práticas de resistência e ações pragmáticas tanto na democracia quanto na ditadura, com destaque para a comunicação radiofônica e para o cotidiano das redações.
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