Banca de DEFESA: JULIO CESAR ALVES PEREIRA NUNES
04/03/2026 15:40
Esta tese analisa a trajetória biográfica de Delso Mendes da Fonseca (1899-1984), militar de carreira e figura central do tenentismo, investigando a intersecção entre as esferas militar, técnica e política no Brasil Republicano, entre as décadas de 1920 e 1960. Partindo da premissa de que a trajetória individual é um observatório privilegiado dos processos de modernização do Estado brasileiro, o trabalho problematiza de que modo o sujeito, atuando sob a identidade de “militar técnico”, reconfigurou-se como agente político em momentos de crise institucional e ruptura. A cidade do Rio de Janeiro é examinada como espaço precípuo e laboratório dessas intervenções, onde a racionalidade tecnocrática e o projeto de modernização urbana serviram como mecanismos de legitimação estatal e de superação do "atraso" da Primeira República. O aporte teórico fundamenta-se nos campos da biografia histórica e da história social, utilizando as contribuições de Pierre Bourdieu para discutir a relação entre a trajetória do indivíduo e as estruturas do campo social, bem como as reflexões de Norbert Elias sobre a constituição do indivíduo no complexo estrutural. Metodologicamente, a pesquisa se debruça sobre a História Oral, baseando-se na entrevista concedida por Delso Mendes da Fonseca ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea (CPDOC-FGV), documento que dialoga com outras fontes primárias: relatórios institucionais, fontes hemerográficas, fé de ofício e correspondências. A tese desvela a transição do "tenente heroico" — protagonista dos levantes de 1922 e 1924 — para o "engenheiro-administrador" na Secretaria de Obras do Distrito Federal durante a Era Vargas, onde a técnica passou a ser articulada como uma missão cívica e terapêutica para a nação. Ao mesmo tempo, o estudo mapeia as tensões desse militar no pós-guerra, inserido nas novas dinâmicas da Escola Superior de Guerra e nos episódios críticos de 1954 e 1955, demonstrando como a tecnocracia militar não foi um bloco monolítico, mas uma vertente que transitou entre o projeto de modernização desenvolvimentista e as disputas de poder que culminaram na tutela militar sobre a política civil.