Banca de DEFESA: ISAAC GONÇALVES SOUZA
24/03/2026 11:56
Na cidade de São Luís, capital do Maranhão, na década de 1980, grupos de jovens inventaram modos de existência usando a poesia como matéria e ferramenta para a produção do tempo e do espaço — esta tese é a narrativa desse acontecimento e das condições históricas no interior das quais ele irrompeu. Considera-se que o início dos anos 1980 coincidiu com uma desintegração das noções até então mais ou menos estáveis de tempo e espaço e que isso foi uma “condição de possibilidade” para a jovem poesia daquela década. Tomam-se como argumentos empíricos duas “ondas” de juventudes ludovicenses que se propuseram a ocupar o espaço público e a cena cultural–editorial. A primeira, o grupo do Guarnicê, começou no rádio e depois fez uma publicação alternativa; a segunda, a Akademia dos Párias, mais jovem e anárquica, que também publicou uma revista, mas que valorizava sobretudo a ocupação da cidade como estética da existência. A narrativa demonstra que as juventudes ludovicenses dos anos 1980 eram herdeiras de noções de juventude urbanas herdadas dos anos 1960 e 1970 transmitidas por diversos veios, como a música tropicalista, rock ‘n’ roll, poesia marginal, imprensa alternativa, rebeliões comportamentais e movimentos organizados. Teoricamente, dialoga-se com a filosofia da diferença e com o pensamento da descontinuidade a partir, principal, mas não exclusivamente, de Deleuze e Foucault e problematizam-se conceitos centrais ao ofício do historiador, como tempo, espaço, documento, subjetividade e corpo. Erige-se o conceito de “corpo-pária” como uma transfiguração do “corpo-transbunde-libertário” (Castelo Branco, 2005) situado no ambiente de São Luís como uma média das sensibilidades da juventude sob o signo da Akademia dos Párias. Toma-se o discurso poético de Celso Borges sobre São Luís no livro O futuro tem o coração antigo (2013) como demonstração de que esse corpo-pária institui uma espacialidade e uma temporalidade próprias que ultrapassam o recorte do tempo-calendário e do espaço geométrico — tempo e espaço intensos feitos de sensibilidade, memória, intenção e arte.